Tenho para mim que portugal ou já ensandeceu ou está por um fio de ensandecer. E porquê? Bom, o porquê está aqui e vem na sequência da aprovação de uma recomendação, por parte do conselho de escolas, de que os alunos devem ter uma pausa a meio do primeiro período, recomendação essa que o Sr. Jorge Ascensão (presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais) criticou. E não só criticou como ainda aproveitou a onda para sugerir algo absurdo.
E então, o que é que o Sr. Jorge disse? Primeiro criticou as "pausas avulso" que as escolas praticam, segundo ele, e ainda teve a lata de dizer (sim, porque um pai para dizer uma coisa destas além de estupidez crónica tem que ter tomates) que "as aulas deveriam começar no início de setembro e terminar apenas no final de julho", sendo que os alunos só teriam direito a um mês de férias.
Ora, antigamente, ainda no meu tempo de menina e moça, fazia-se uma paragem de 1 semana por altura dos finados. Bons tempos! Eram tempos de ir para casa dos avós (porque os pais tinham que trabalhar), de muita algazarra com sabor a liberdade por não estarmos sempre sob a alçada dos pais e podermos desfrutar dos mimos que estragam qualquer um, mas que sabe tão bem. Agora, 2 dias de pausa no primeiro período? O que é isso? Nada. Mas o drama parental já começou!
O que mais se ouve nos media, aquando do início das férias, é "ai jasuuuuus onde é que vou enfiar os putos para poder ir trabalhaaaaar?" como se fosse o mundo acabar ali. Acredito que para alguns pais que não têm os avós das crianças por perto seja, de facto, complicado pensar nas férias com a tranquilidade que elas merecem mas afinal, férias são férias porra! E não são só os adultos que ficam felizes com elas, as crianças também. Mas daí a sugerir que as crianças só devem ter um mês de férias?! Aí já estamos a bater em vários patamares, um deles é a desumanidade.
O Sr. Jorge diz que tem receio que as escolas comecem a ter mais pausas do que aulas. Oh Sr, por acaso sabe fazer contas? Parece-me que não, mas eu dou uma ajudinha. As crianças, por norma, têm aulas num período das 9h às 17.30h durante 5 dias por semana, o que equivale a 42h 30 min, sem contar com os raros feriados que se metem pelo meio, porque os feriados estão para o ser humano como os burros para o mundo: em vias de extinção. Ou seja, uma criança de 6 anos passa mais 2h 30min na escola, por semana, do que um adulto em horário laboral estipulado por lei. Contas feitas, e já contando com as pausas existentes no período escolar, uma criança passa 9 meses em aulas. Oh Sr. Jorge, 9 meses não chegam para cumprir os programas estabelecidos pelo ministério da educação?! Olhe que 9 meses dá para muita coisa! Até para gerar um filho, que é a coisinha mais complexa que existe à face da vida humana. Agora, se os programas não são cumpridos, há que reformular sim a educação, mas comecemos pelos professores e não pela parte mais fraca, os alunos. Um professor é muito mais do que um "despeja matéria", um professor é um guia, é um tutor, é como uma locomotiva de um comboio; se ele descarrila vai tudo atrás. Mas um professor não tem (nem deve!) a obrigação de representar um papel que não lhe cabe: o de ser pai.
Portanto, dizer que as crianças devem ter mais aulas é o mesmo que estar a delegar a responsabilidade de 20 ou 30 cabeças a uma só. Não dá, é desumano, é estúpido. Um professor quando se licencia não é para servir de babysitter, é para instruir e delegar outra coisa, sem ser afetos e cuidados: saber. Os afetos é responsabilidade dos pais, ou pelo menos deveria ser.
Outra coisa que o Sr. Jorge disse e, desculpe-me a ousadia, mas não pude deixar de me rir "bué", foi que os alunos "podem estar na escola sem atividade letiva, sem estar a estudar o programa curricular. Os miúdos precisam de respirar a escola sem ser dentro das paredes de sala de aula. Tem de haver um envolvimento com a biblioteca e com os espaços exteriores". Oh Sr., o Sr. decida-se! Atão primeiro diz que as criancinhas precisam de mais aulas para se cumprirem os programas curriculares, depois já diz que elas têm que "respirar" a escola (como se ela fosse alguma flor) e tem que haver um maior envolvimento com os espaços e o diabo a sete. Desculpe-me a franqueza, mas creio que o Sr. anda à procura de depósitos fáceis para os pais despejarem os filhos quando não lhes dá jeito ficarem com eles, e não de melhorar qualquer coisinha na educação escolar deles. Se é para isso, o Sr. tem que fazer outra proposta; o de não se ter mais filhos.
O Sr. tem razão quando diz que é preciso haver um maior envolvimento dos alunos, mas não é com a escola, é com a família.
Basta pegar nos estudos (comprovados! não é de faz de conta) que por lá e por cá se fazem e, facilmente, poderá verificar que o sucesso escolar também está relacionado com a qualidade de afetos e cuidados despendidos pela família. Porque um aluno com mais horas de escola não é, com certeza, um aluno mais inteligente e feliz.
Ora, se um aluno passa mais tempo na escola do que com a família, alguma coisa está mal. O Sr. acaso gostaria de que o obrigassem a ter só 2 semanas (em vez de 1 mês) de férias e lhe alargassem o período de trabalho? Mesmo que o seu chefe justificasse tal decisão como "ter que respirar e se envolver com o seu espaço de trabalho"? Não faz sentido, certo? Acredito que há dias em que chega a hora de almoço e o Sr. só pensa em ir para casa por estar farto de ali estar, de aturar quem não lhe apetece e, sobretudo, farto de estar fechado no mesmo sítio horas a fio. Porque é que acha que com as crianças, em relação à escola, é diferente do que se passa com os adultos?
Os filhos, na minha prespetiva de mãe, não foram feitos só para se dizer que os temos ou para satisfazer as convenções sociais do namorar-casar-procriar. Os filhos são um pedaço de nós, são uma extensão do melhor que temos e somos, ou pelo menos deveria ser assim. Os filhos são como flores que devemos cuidar bem para que um dia se tornem árvores bem enraizadas e frondosas. E isto, caro Sr. Jorge, não são palavras bonitas que uso para o convencer. É a realidade! Os seus filhos, os meus e os dos outros pais, serão os adultos de amanhã. Se ensinarmos os filhos a serem máquinas de produção de qualquer coisa, temo que no futuro teremos uma sociedade de humanos robotizados desprovidos de qualquer sentimento e que só servem para fazer dinheiro e alimentar o ego dos grandes.
Não foi para isso que eu trouxe filhos ao mundo Sr. Jorge! Eu não quero ver os meus filhos tristes, frustrados, como se carregassem o peso de uma sociedade mecanizada onde o período de "trabalho" é muito maior do que o período de viver e ser feliz. Eu gosto de ter férias, adoro. E acredito que o Sr. também goste. E sei que o meu filho e os seus também, mesmo que eles ainda tenham uma ideia muito rudimentar do que são férias e para que servem. Mas... não é esperado que eles saibam tudo de uma vez, não é esperado que eles entendam coisas fora do tempo. Não se pode esperar que uma criança de 6, 7 ou 8 anos valorize as férias como um adulto de 20, 30 ou 40 anos. Mas ainda assim, mesmo que eles não entendem o valor delas, merecem-nas. Tal como o Sr. que trabalha a maior parte do ano e quando vai de férias também sente que as merece.
Os filhos não são máquinas de acumular e produzir conhecimento, não é isso que irá torna-los mais competentes e felizes na adultícia.
Agora, aquilo que os pais transmitem e dão aos seus filhos, isso sim irá contribuir tanto para o desenvolvimento das suas competências como para a sua felicidade.
A escola é um lugar para aprender, sim, mas muito mais do que ler, escrever e fazer contas. A escola deveria ser também um lugar para expressar como ser feliz, como se ama. E isso é uma lição que deverá ser aprendida em casa, com os pais.
Ora, se as crianças já passam cada vez mais tempo distanciadas da família e com menos tempo de brincadeira, com menos 1 mês de férias chegamos ao culminar de lhes roubar o direito de serem crianças para lhes incutir o serem adultos em ponto pequeno. Porque, caso o Sr. não saiba, também se aprende e se cresce a brincar.
Cada vez se fala mais em hiperatividade, cada vez mais se medica crianças de ânimo leve devido a distúrbios mentais, cada vez mais vemos crianças frustradas e deprimidas. Isto não lhe diz nada? Talvez seja só até ao dia em que um dos seus filhos entrar pela porta de casa e o mandar à merda e dizer que está farto de si, dos outros e do mundo, e depois você o acusar com a frase célebre de "não foi assim que te eduquei", quando na verdade até foi, quando na verdade foi você que o motivou a encher o saco com carência, com incompreensão, com estudo a mais e amor a menos. Depois leva-o a um psicólogo ou a um psiquiatra à procura da solução para o problema, e nenhum deles tem a coragem de lhe dizer "a culpa é sua" porque o capitalismo está pela hora da morte, e tal como o Sr. se quer aproveitar da escola para se livrar da responsabilidade parental desculpando-se com "tenho que ganhar a vida", também os profissionais de saúde têm que ganhar a deles, nem que seja à custa da desgraça dos outros.
Portanto, desejo, sinceramente que as entidades superiores a si não lhe dêem ouvidos. Para bem dos seus filhos, dos meus e de tantos outros pais que se recusam a ter crianças mal amadas e escravas da escola.
Para si, só tenho mais uma coisa a dizer: tenha juízo.
ML
sábado, 13 de junho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Apetece-me falar disto: #obesidade
Este post vem na sequência de uma "polémica", mais ou menos acesa, entre mim e umas pessoas que estão, neste momento, em processo de perda de peso. A polémica veio acerca do que uma certa personagem disse aqui e à qual eu reagi.
A minha indignação começou logo pelo facto da concordância com o "artigo" por parte dessas mesmas pessoas, mas no fundo essa concordância não parece, de todo, surreal, mas já lá vamos.
Começando pelo "artigo"; só o título do discurso assusta, e essa foi a minha "parte 2" de indignação. Se não vejamos, primeiro a personagem defende que uma pessoa gorda não deve ser gozada por isso mas depois a seguir intercala o discurso a dizer que o obeso tem que ter vergonha pra mudar (?). Oi? Já não basta aquela que é incutida pelos olhares da sociedade, cheia de estereótipos macabros acerca dos padrões de beleza, como se o gordo tivesse uma espécie de lepra? Já não chega o sofrimento de quem é obeso e passa pelo processo (às vezes desesperante) de emagrecimento, muitas vezes sem apoio algum? Já não chega a vergonha de si mesmo que o obeso vai acumulando, juntamente com os quilos a mais? E a vergonha, é muito mais do que ouvir "ólhame práquela gorda!". A vergonha de quilos a mais, quase sempre, vem agregada a outro tipo de vergonha: a de ser quem é.
Portanto, para mim, alguém que diz (e outros que defendem) que "é preciso passar vergonha para mudar" é uma variante de um xenófobo. Eu cheguei a ler uma opinião justificativa para o discurso do artigo como algo do género "ele diz que não se deve humilhar nem gozar uma pessoa gorda, mas que no fundo se deve fazer liberta-la dos mecanismos de defesa que usa e incentiva-la a mudar".
Clap clap clap, palminhas pra ela porque, o que poderá ser melhor do que um incentivo para alguém gordo qu'safarta, de quem não se conhece a história, do que estimular-lhe a vergonha? Só se for tortura-la à moda da inquisição porque, assim de repente, não me ocorre outro melhor incentivo.
Ah, mas a história de vida do gordo conta para o peso? Não, conta a história do peso, é diferente.
Mas, continuando, e seguindo a sequência da polémica, também li algo do género "o problema é que se extremaram posições: de um lado os fat haters, gente que sente nojo até de um pneusinho, e gente que vai para o pólo oposto, o do love your curves, quando muitas vezes não são curvas porra nenhuma, são mesmo 40 ou 50 kg a mais". Bom, curvas são sempre curvas até porque nunca vi um gordo liso! Eu pelo menos estou (é diferente do ser) gorda e só vejo curvas, não há nenhuma espécie de achatamento em mim. Agora se são curvas apreciáveis ou desapreciáveis, depende dos gostos de cada um.
Mas o grande problema neste comentário, e que reflete bem a realidade do obeso, não é a de "amar"40 ou 50 kg a mais, aqui o grande problema (senão o central) é não SE amar com 40 ou 50 kg a mais. Será que se o gordo, numa tentativa de deixar de se "odiar"e carregar a vergonha ao peito, perder esses 40 ou 50 kg a mais, vai passar a amar-se mais? Se calhar se ele se amasse talvez nem gordo fosse...
Vamos lá ver se nos entendemos, um gordo não é gordo porque quer! Há toda uma história de vida por trás, todo um sofrimento profundo que, na maior parte das vezes, não se vê e o acumular de quilos é só uma consequência disso. Raras excepções, ninguém engorda até à obesidade mórbida porque quer ou porque se acha sexy no meio de banhas e celulite. Há motivos, há razões fortes que o justificam. Agora, o gordo deve esconder-se atrás dessas justificações, atrás da sua história sofrida para continuar a afogar-se em comida? Não, obviamente. Mas a perda de peso é um processo doloroso e moroso. Tal como ninguém engorda do dia para a noite, também ninguém emagrece.
Mas não posso deixar de falar dos "fat haters". Esses coitados que não sabem que pela boca morre o peixe. Em tempos, no auge dos meus 12/13 anos, na escola havia sempre meia dúzia de anormais que me chamavam gorda e balofa e coisas do género. Até que um dia... (mais recentemente, diga-se) descobri que uma dessas personagens engordou de tal forma que hoje é também um obeso na luta contra o excesso de peso. Ou seja, morreu pela boca, porque agora também ele sabe o que é sofrer com o excesso de peso. Sentir na pele é outro nível.
Portanto, queridos/as fat haters que me possam estar a ler desse lado: pensai bem antes de abrir a boquinha, porque um dia, fatalmente, ela faz-te "game over" e depois ou "insert'as" coin ou então vais ser gozada como hoje o fazes.
Mas voltando ao "artigo", outra parte interessante foi a parte da propaganda da gordura nas redes sociais. Se esta besta usasse os neurónios, nem que fosse só um bocadinho, iria perceber que o objetivo dessa propaganda não é incentivar as pessoas à obesidade e aos problemas de saúde que dela advém. O objetivo é fazer com que as pessoas se aceitem, seja qual for a condição em que estejam, é incentiva-las a amarem-se tal como são porque a mudança é aí mesmo que começa: cultivar o amor próprio. Não são menos 40 ou 50 kg que vão fazer com que o obeso se ame mais, que se respeite, que se dignifique, que se ache alguém com valor e liberdade para viver. Sim, porque é isso que a vergonha faz; impede-nos de viver; não vou à praia porque tenho vergonha das minhas banhas e da minha celulite, não vou sair à noite com os meus amigos para não ferir as vistinhas de alguém, não vou comer uma fatia de bolo de anos porque as pessoas vão olhar pra mim como alguém asqueroso, não vou maquilhar-me porque só as gajas boas é que têm esse privilégio, não vou vestir-me de forma sexy porque gorda qué gorda tem que vestir sacos de batatinhas (vivásburcas!), não vou usar biquíni porque isso é uma afronta às gajas bouas comómilho. E depois, quando se perde o excesso de peso? Não vou à praia porque estou flácida e tenho estrias, não uso camisolas mais justas porque o pneu não desapareceu, não vou comer um bolo porque depois sonho com as formigas a comerem-me à noite. Vergonha gera vergonha e nunca se sai daí.
Em suma, gorda qué gorda tem que ir para o corredor da vergonha cumprir pena e só depois de emagrecer é que tem direito à liberdade.
É surreal que se defenda a vergonha pelo excesso de peso. E mais surreal ainda é ver gordas a defenderem esse prisma! Mas, tal como disse acima, não me surpreende que assim seja. Afinal, muitas delas parecem iô-iôs, ora engordam ora emagrecem e depois criam ruas de amargura e atiram-se para o meio delas. Afinal, não são só os gordos que arranjam (ou precisam) de justificativas para não mudarem e continuarem a acumular quilos e a sofrerem de sorriso no rosto até (alguns) saírem pela porta do suicídio.
Afinal também os gordos que estão no processo de emagrecimento se agarram à vergonha que trazem como justificativa para mudarem, mesmo que isso implique viver anos e anos a jogar ao iô-iô com palas nos olhos e mais nada coubesse no seu conceito de felicidade senão a magreza.
ML
A minha indignação começou logo pelo facto da concordância com o "artigo" por parte dessas mesmas pessoas, mas no fundo essa concordância não parece, de todo, surreal, mas já lá vamos.
Começando pelo "artigo"; só o título do discurso assusta, e essa foi a minha "parte 2" de indignação. Se não vejamos, primeiro a personagem defende que uma pessoa gorda não deve ser gozada por isso mas depois a seguir intercala o discurso a dizer que o obeso tem que ter vergonha pra mudar (?). Oi? Já não basta aquela que é incutida pelos olhares da sociedade, cheia de estereótipos macabros acerca dos padrões de beleza, como se o gordo tivesse uma espécie de lepra? Já não chega o sofrimento de quem é obeso e passa pelo processo (às vezes desesperante) de emagrecimento, muitas vezes sem apoio algum? Já não chega a vergonha de si mesmo que o obeso vai acumulando, juntamente com os quilos a mais? E a vergonha, é muito mais do que ouvir "ólhame práquela gorda!". A vergonha de quilos a mais, quase sempre, vem agregada a outro tipo de vergonha: a de ser quem é.
Portanto, para mim, alguém que diz (e outros que defendem) que "é preciso passar vergonha para mudar" é uma variante de um xenófobo. Eu cheguei a ler uma opinião justificativa para o discurso do artigo como algo do género "ele diz que não se deve humilhar nem gozar uma pessoa gorda, mas que no fundo se deve fazer liberta-la dos mecanismos de defesa que usa e incentiva-la a mudar".
Clap clap clap, palminhas pra ela porque, o que poderá ser melhor do que um incentivo para alguém gordo qu'safarta, de quem não se conhece a história, do que estimular-lhe a vergonha? Só se for tortura-la à moda da inquisição porque, assim de repente, não me ocorre outro melhor incentivo.
Ah, mas a história de vida do gordo conta para o peso? Não, conta a história do peso, é diferente.
Mas, continuando, e seguindo a sequência da polémica, também li algo do género "o problema é que se extremaram posições: de um lado os fat haters, gente que sente nojo até de um pneusinho, e gente que vai para o pólo oposto, o do love your curves, quando muitas vezes não são curvas porra nenhuma, são mesmo 40 ou 50 kg a mais". Bom, curvas são sempre curvas até porque nunca vi um gordo liso! Eu pelo menos estou (é diferente do ser) gorda e só vejo curvas, não há nenhuma espécie de achatamento em mim. Agora se são curvas apreciáveis ou desapreciáveis, depende dos gostos de cada um.
Mas o grande problema neste comentário, e que reflete bem a realidade do obeso, não é a de "amar"40 ou 50 kg a mais, aqui o grande problema (senão o central) é não SE amar com 40 ou 50 kg a mais. Será que se o gordo, numa tentativa de deixar de se "odiar"e carregar a vergonha ao peito, perder esses 40 ou 50 kg a mais, vai passar a amar-se mais? Se calhar se ele se amasse talvez nem gordo fosse...
Vamos lá ver se nos entendemos, um gordo não é gordo porque quer! Há toda uma história de vida por trás, todo um sofrimento profundo que, na maior parte das vezes, não se vê e o acumular de quilos é só uma consequência disso. Raras excepções, ninguém engorda até à obesidade mórbida porque quer ou porque se acha sexy no meio de banhas e celulite. Há motivos, há razões fortes que o justificam. Agora, o gordo deve esconder-se atrás dessas justificações, atrás da sua história sofrida para continuar a afogar-se em comida? Não, obviamente. Mas a perda de peso é um processo doloroso e moroso. Tal como ninguém engorda do dia para a noite, também ninguém emagrece.
Mas não posso deixar de falar dos "fat haters". Esses coitados que não sabem que pela boca morre o peixe. Em tempos, no auge dos meus 12/13 anos, na escola havia sempre meia dúzia de anormais que me chamavam gorda e balofa e coisas do género. Até que um dia... (mais recentemente, diga-se) descobri que uma dessas personagens engordou de tal forma que hoje é também um obeso na luta contra o excesso de peso. Ou seja, morreu pela boca, porque agora também ele sabe o que é sofrer com o excesso de peso. Sentir na pele é outro nível.
Portanto, queridos/as fat haters que me possam estar a ler desse lado: pensai bem antes de abrir a boquinha, porque um dia, fatalmente, ela faz-te "game over" e depois ou "insert'as" coin ou então vais ser gozada como hoje o fazes.
Mas voltando ao "artigo", outra parte interessante foi a parte da propaganda da gordura nas redes sociais. Se esta besta usasse os neurónios, nem que fosse só um bocadinho, iria perceber que o objetivo dessa propaganda não é incentivar as pessoas à obesidade e aos problemas de saúde que dela advém. O objetivo é fazer com que as pessoas se aceitem, seja qual for a condição em que estejam, é incentiva-las a amarem-se tal como são porque a mudança é aí mesmo que começa: cultivar o amor próprio. Não são menos 40 ou 50 kg que vão fazer com que o obeso se ame mais, que se respeite, que se dignifique, que se ache alguém com valor e liberdade para viver. Sim, porque é isso que a vergonha faz; impede-nos de viver; não vou à praia porque tenho vergonha das minhas banhas e da minha celulite, não vou sair à noite com os meus amigos para não ferir as vistinhas de alguém, não vou comer uma fatia de bolo de anos porque as pessoas vão olhar pra mim como alguém asqueroso, não vou maquilhar-me porque só as gajas boas é que têm esse privilégio, não vou vestir-me de forma sexy porque gorda qué gorda tem que vestir sacos de batatinhas (vivásburcas!), não vou usar biquíni porque isso é uma afronta às gajas bouas comómilho. E depois, quando se perde o excesso de peso? Não vou à praia porque estou flácida e tenho estrias, não uso camisolas mais justas porque o pneu não desapareceu, não vou comer um bolo porque depois sonho com as formigas a comerem-me à noite. Vergonha gera vergonha e nunca se sai daí.
Em suma, gorda qué gorda tem que ir para o corredor da vergonha cumprir pena e só depois de emagrecer é que tem direito à liberdade.
É surreal que se defenda a vergonha pelo excesso de peso. E mais surreal ainda é ver gordas a defenderem esse prisma! Mas, tal como disse acima, não me surpreende que assim seja. Afinal, muitas delas parecem iô-iôs, ora engordam ora emagrecem e depois criam ruas de amargura e atiram-se para o meio delas. Afinal, não são só os gordos que arranjam (ou precisam) de justificativas para não mudarem e continuarem a acumular quilos e a sofrerem de sorriso no rosto até (alguns) saírem pela porta do suicídio.
Afinal também os gordos que estão no processo de emagrecimento se agarram à vergonha que trazem como justificativa para mudarem, mesmo que isso implique viver anos e anos a jogar ao iô-iô com palas nos olhos e mais nada coubesse no seu conceito de felicidade senão a magreza.
ML
sábado, 21 de março de 2015
Quem não tiver telhados de vidro...
Todos os dias deparo-me no facebook com frases pré-feitas sobre o julgamento que as pessoas fazem umas das outras, "dicas", indiretas das vítimas desses julgamentos para os algozes que os fazem. São frases que dão que pensar mas só por uns segundos porque logo a seguir aparece uma foto ou um "estado" de alguém que nos faz pensar "tssss olhem-me para isto, não tem vergonha" ou então "deve pensar que é boa/bom" ou então "txeee foi para a rambóia assim vestida/o?". E por muito que isto nos custe a engolir, é verdade, acontece. Já me aconteceu a mim, já aconteceu a ti, já aconteceu ao teu vizinho, acontece a toda a gente. Não vale a pena fazer-mo-nos de indignados e fingirmos que somos uns fofinhos e salvadores da honra dos outros porque muitas das vezes nem da nossa sabemos cuidar quanto mais da dos outros! A verdade é esta e não há outra: todos fazemos juízos de valor.
E porque é que isto acontece? Simples; porque nascemos já com essa tendência e crescemos com ela. A menos que alguém seja filho de algum aspirante a budista que esteja sempre zen com tudo e todos, mas até esses são seres humanos, portanto, consciente ou inconscientemente também fazem juízos de valor.
Vivermos em sociedade faz com que sejamos assim, estamos sempre a procurar a aprovação dos outros devido à necessidade de lhe pertencermos e por muito que tentemos emancipar-nos disso, não dá.
Isto não implica que não sejamos nós próprios, verdadeiros, nada disso, mas julgar os outros está tão intrínseco que é quase tão normal como respirarmos.
A boa notícia é que a passividade com que fazemos juízos de valor pode ser atenuada se nos esforçarmos para tal. Não é virarmos santos, não é nada disso! O atenuar a forma como julgamos os outros é um trabalho tal e qual como ir à escola, só que neste caso a escola é a vida e os professores são os outros. É na maneira como nós sabemos que olhamos para as atitudes e comportamentos dos outros que vamos buscar as ferramentas necessárias para trabalhar isso, é usar os outros como um espelho nosso porque, se pensarmos bem, todos nós somos o reflexo uns dos outros. O ditado é antigo e é bem certo "nas costas dos outros vemos as nossas" e a verdade é esta, é na convivência com eles que nos conhecemos porque ao fim ao cabo somos "todos diferentes mas todos iguais".
Por exemplo, aquelas amigas que se juntam para ir à missa, que comungam e que até costumam confessarem-se e que assim que saem da igreja uma diz para a outra "já viste a fulana tal? agora anda toda bem vestida, tem um marido em casa e filhos e eu soube pela ti Maria que o neto a costuma ver em bares e em bailaricos das terrinhas. Cá para mim anda a pôr os palitos ao pobre coitado e ele sem saber, é mesmo desenvergonhada!", quem é que já não ouviu este tipo de coisas ou já não foi vítima deste tipo de julgamento? A pergunta é, o marido é delas? E porque é que a mulher não pode sair para se divertir? Acaso a maneira de ver o casamento tem que ser igual à forma como elas o vêem? O facto de sair é sinal de que vai desrespeitar a família? E o andar bem vestida sai dos bolsos delas? Acaso a mulher lhes pede alguma coisa ou que lhes pague as dívidas ao final do mês? São elas que trabalham para meter comida na mesa em casa? Não, obviamente.
E se fosse ao contrário? Se fossem elas as vítimas desses julgamentos? Acaso iriam sentir-se bem?
Eu sei que a tentação é grande, sai-nos muitas vezes sem darmos por ela mas o importante é termos consciência de quando estamos a julgar o outro, parar para pensar e fazermos algo que é-nos tão difícil ainda: colocar-mo-nos no lugar dele, pensarmos de quando somos nós a estar naquela situação ou se algum dia estivéssemos nela se gostaríamos que os outros fizessem o mesmo tipo de julgamento acerca da nossa pessoa.
Quem não tiver telhados de vidro que atire a primeira pedra: isto serve para mim, para ti e para todos. E lembra-te, hoje és tu o juíz amanhã serás o julgado.
ML
E porque é que isto acontece? Simples; porque nascemos já com essa tendência e crescemos com ela. A menos que alguém seja filho de algum aspirante a budista que esteja sempre zen com tudo e todos, mas até esses são seres humanos, portanto, consciente ou inconscientemente também fazem juízos de valor.
Vivermos em sociedade faz com que sejamos assim, estamos sempre a procurar a aprovação dos outros devido à necessidade de lhe pertencermos e por muito que tentemos emancipar-nos disso, não dá.
Isto não implica que não sejamos nós próprios, verdadeiros, nada disso, mas julgar os outros está tão intrínseco que é quase tão normal como respirarmos.
A boa notícia é que a passividade com que fazemos juízos de valor pode ser atenuada se nos esforçarmos para tal. Não é virarmos santos, não é nada disso! O atenuar a forma como julgamos os outros é um trabalho tal e qual como ir à escola, só que neste caso a escola é a vida e os professores são os outros. É na maneira como nós sabemos que olhamos para as atitudes e comportamentos dos outros que vamos buscar as ferramentas necessárias para trabalhar isso, é usar os outros como um espelho nosso porque, se pensarmos bem, todos nós somos o reflexo uns dos outros. O ditado é antigo e é bem certo "nas costas dos outros vemos as nossas" e a verdade é esta, é na convivência com eles que nos conhecemos porque ao fim ao cabo somos "todos diferentes mas todos iguais".
Por exemplo, aquelas amigas que se juntam para ir à missa, que comungam e que até costumam confessarem-se e que assim que saem da igreja uma diz para a outra "já viste a fulana tal? agora anda toda bem vestida, tem um marido em casa e filhos e eu soube pela ti Maria que o neto a costuma ver em bares e em bailaricos das terrinhas. Cá para mim anda a pôr os palitos ao pobre coitado e ele sem saber, é mesmo desenvergonhada!", quem é que já não ouviu este tipo de coisas ou já não foi vítima deste tipo de julgamento? A pergunta é, o marido é delas? E porque é que a mulher não pode sair para se divertir? Acaso a maneira de ver o casamento tem que ser igual à forma como elas o vêem? O facto de sair é sinal de que vai desrespeitar a família? E o andar bem vestida sai dos bolsos delas? Acaso a mulher lhes pede alguma coisa ou que lhes pague as dívidas ao final do mês? São elas que trabalham para meter comida na mesa em casa? Não, obviamente.
E se fosse ao contrário? Se fossem elas as vítimas desses julgamentos? Acaso iriam sentir-se bem?
Eu sei que a tentação é grande, sai-nos muitas vezes sem darmos por ela mas o importante é termos consciência de quando estamos a julgar o outro, parar para pensar e fazermos algo que é-nos tão difícil ainda: colocar-mo-nos no lugar dele, pensarmos de quando somos nós a estar naquela situação ou se algum dia estivéssemos nela se gostaríamos que os outros fizessem o mesmo tipo de julgamento acerca da nossa pessoa.
Quem não tiver telhados de vidro que atire a primeira pedra: isto serve para mim, para ti e para todos. E lembra-te, hoje és tu o juíz amanhã serás o julgado.
ML
sábado, 7 de março de 2015
Sim, odeio-o, e depois?
Nos dias que correm, o ser humano ainda se vê amarrado pelas emoções que o podem denegrir pudicamente perante a sociedade, ainda vive amarrado na vergonha de assumir as emoções negativas que possa sentir;em suma, continua refém de sim mesmo.
O ódio, esse sentimento supremo da escuridão, esse sentimento rejeitado na boca de muitos mas habitável em muitos corações, é uma das muitas emoções negativas que a sociedade rejeita mas alimenta, dia após dia. A maior parte dos comuns mortais já sentiu ou sente ódio de alguém ou de alguma coisa, quanto mais não seja de si próprio. E eu não sou excepção.
Até há pouco tempo eu desconhecia esse sentimento tão poderoso e o que ele era capaz de fazer com a mente e com o coração. Mas como muitas coisas na vida, é preciso viver e experienciar para conhecermos não só o poder dessas mesmas coisas mas também nos testarmos enquanto seres humanos dotados de emoções à flor da pele. E digo "à flor da pele" porque até o ser mais controlado tem um saco que enche e explode.
Mas há uma coisa que muita gente não sabe e que eu só descobri depois de ter sentido, pela primeira vez, ódio no coração: é imprescindível aceitarmos que ele está lá. O ódio é como uma doença; tem a sua fase inicial em que surge no coração de mansinho, sem avisar, vai sendo alimentado inconscientemente até saturar todas as células da mente e da alma, passando pela fase da manifestação com as suas crises de negação e, quiçá, se não for tratada, ser capaz de conspurcar o que resta de nós até nos levar à loucura. Daqui até à morte é uma questão de nada.
Em psicologia, aprendi que a aceitação é um passo fundamental e central para qualquer mudança, seja ela de que teor for. Se é fácil? Não, não é. Às vezes vive-se anos e anos enclausurado numa panóplia de sentimentos destrutivos, vive-se constantemente num conflito interno por se querer aceitar uma determinada coisa e as emoções deturparem a mente de tal maneira que nos impede de avançar para o passo da aceitação. É uma luta intensa e constante, sem dúvida. E eu conheço tão bem essa luta interna...
É uma luta que desgasta, que me faz olhar no espelho e não me reconhecer; o que era outrora doce, meigo, dado, tornou-se amargo, frio, revoltado. É uma luta que me faz ter medo do "e se eu não vencer?". É uma luta ingrata entre o querer e não poder. É uma luta diária e, sobretudo, consciente.
Mas para chegar até à parte da "luta" é preciso entrar no processo primário de aceitação daquilo que se sente.
Como é que se trata uma doença sem se aceitar que ela vive em simbiose connosco? Impossível. Podem-se ingerir todos os medicamentos, os melhores do mercado, mas dificilmente a doença se cura porque toda a doença tem o seu gérmen na alma. Portanto, cura do corpo sem a cura do espírito é uma brincadeira de médicos, somente.
É verdade, eu odeio-o. E depois? Vou dizer ao mundo que não? Para quê? Dos outros eu posso fugir mas de mim nunca. Eu poderia fingir perante os outros que tenho um coração puro, que ódio aqui não entra, que sou muito melhor que isso, que isso é para gente reles e pequenina de mente e blá blá blá whiskas saquetas. Mas aquilo que os outros possam pensar de mim pode atenuar ou melhorar aquilo que de mais podre eu sinto? Não. Porque não é o mundo que me carrega, sou eu mesma. E sou eu que apodreço dia após dia, não os outros.
O mundo só serve para nos dar aquilo que precisamos para crescer e aprender a sermos melhores do que éramos. O resto sai-nos do couro.
A escolha foi minha. A escolha é sempre de cada um. Aceitar o que se sente com verdade e depois partir para o tratamento, ou então fingir que nada se sente e pintar a imagem de pureza interior numa tela que sempre será um mundo estático e que nunca será nosso porque o nosso, felizmente, roda.
Eu sei que o odeio e sei que isso me magoa mais a mim do que a ele, porque o que ele me fez não pode ser alterado ou desfeito. Perdoa-lo depende de mim.
O perdão é uma luta que só o corajoso trava com a sua sombra, e demore o tempo que demorar o vencedor será sempre ele. Mas mais do que isso, não quero odiar para um dia ser odiada.
O nosso mundo roda, não é estático. Tudo o que damos a vida devolve-nos em dobro e desta máxima só foge quem é tolo.
ML
sábado, 10 de janeiro de 2015
Urgência!
Sinto uma urgência de colo, de ser engolida pela mãe terra e ficar no seu ventre, regredindo por todos os estágios que percorri desde a concepção até hoje, sinto necessidade de voltar a sentir-me raiz mas desta vez não de uma mulher, e sim de mim mesma.
Sinto uma urgência de ficar alojada numa parede qualquer da vida e ser alimentada durante 9 momentos, e depois, ser parida pela mãe terra e dar um novo grito à luz da vida.
Sinto uma urgência de ser embalada com ausência de canções, de ficar simplesmente aninhada nuns braços quaisquer e sentir-me pequenina sem ser cobrada por isso.
Sinto urgência de ficar calada no meio de gritos ensurdecedores que me corroem a alma, de fininho e sem ninguém ver.
Sinto urgência de morrer e renascer, sem passar pelo pó. Porque ainda tenho tanto para desbravar.
Sinto que tenho o mundo para explorar, e visto daqui debaixo tudo me parece tão grande e imenso, tão intenso e assustador.
Sinto urgência de esquecer que eu existo e que até mesmo tu algum dia exististe na minha vida. Sim, falemos em passado porque já estás do lado de fora da porta com ela fechada e trancada a 8 chaves (contando com a suplente).
Eu tenho urgência em culpar-te por toda a dor que sinto e pela pessoa amarga que vejo, de dia para dia, agigantar-se em mim. Mas depois lembro-me que a estupidez foi minha em ignorar os sinais do óbvio e lembro-me também da maior sequela que carrego no ventre.
Poderia fazer o que sempre fiz com outras dores passadas: fingir que não dói, ignorar a ferida aberta e seguir caminho mesmo que isso implicasse repetir os mesmos erros e voltar a passar por tudo outra vez. Desta vez, a proporção é maior. A dor é gigante demais para caber debaixo de um tapete. Tudo está tão negro, tão dorido, tão enraivecido em mim que faltam-me as palavras para expressar algo que eu sempre soube fazer na perfeição: a dor.
Neste momento, e pela primeira vez na vida, estou a obrigar-me a senti-la como todas as dores devem ser sentidas. Só assim, finalmente, começarei a aprender com os meus erros.
Culpar-te é tão pouco comparado com aquilo que a vida te vai oferecer de volta, por isso de nada me adianta, em nada me ameniza.
Como a minha melhor amiga diz, e tão sabiamente, "sentir é o que te esta a deitar abaixo, mas é também o que te está a fazer viva a cada dia". E por muito negro que o horizonte se aviste, esta é uma verdade irrefutável que deve ser lembrada todos os dias da minha vida.
ML
Sinto uma urgência de ficar alojada numa parede qualquer da vida e ser alimentada durante 9 momentos, e depois, ser parida pela mãe terra e dar um novo grito à luz da vida.
Sinto uma urgência de ser embalada com ausência de canções, de ficar simplesmente aninhada nuns braços quaisquer e sentir-me pequenina sem ser cobrada por isso.
Sinto urgência de ficar calada no meio de gritos ensurdecedores que me corroem a alma, de fininho e sem ninguém ver.
Sinto urgência de morrer e renascer, sem passar pelo pó. Porque ainda tenho tanto para desbravar.
Sinto que tenho o mundo para explorar, e visto daqui debaixo tudo me parece tão grande e imenso, tão intenso e assustador.
Sinto urgência de esquecer que eu existo e que até mesmo tu algum dia exististe na minha vida. Sim, falemos em passado porque já estás do lado de fora da porta com ela fechada e trancada a 8 chaves (contando com a suplente).
Eu tenho urgência em culpar-te por toda a dor que sinto e pela pessoa amarga que vejo, de dia para dia, agigantar-se em mim. Mas depois lembro-me que a estupidez foi minha em ignorar os sinais do óbvio e lembro-me também da maior sequela que carrego no ventre.
Poderia fazer o que sempre fiz com outras dores passadas: fingir que não dói, ignorar a ferida aberta e seguir caminho mesmo que isso implicasse repetir os mesmos erros e voltar a passar por tudo outra vez. Desta vez, a proporção é maior. A dor é gigante demais para caber debaixo de um tapete. Tudo está tão negro, tão dorido, tão enraivecido em mim que faltam-me as palavras para expressar algo que eu sempre soube fazer na perfeição: a dor.
Neste momento, e pela primeira vez na vida, estou a obrigar-me a senti-la como todas as dores devem ser sentidas. Só assim, finalmente, começarei a aprender com os meus erros.
Culpar-te é tão pouco comparado com aquilo que a vida te vai oferecer de volta, por isso de nada me adianta, em nada me ameniza.
Como a minha melhor amiga diz, e tão sabiamente, "sentir é o que te esta a deitar abaixo, mas é também o que te está a fazer viva a cada dia". E por muito negro que o horizonte se aviste, esta é uma verdade irrefutável que deve ser lembrada todos os dias da minha vida.
ML
sábado, 13 de dezembro de 2014
Onde andas espírito do Natal?
Não sei o que se passa este ano. Não me sinto próxima do natal. Eu, que faço a árvore sempre no dia 1 de novembro por desde miúda achar que a casa enfeitada durava tão pouco tempo, este ano só a fiz no inicio de dezembro.
Até mesmo os presentes de natal ficaram pelo caminho. Nesta altura do ano já tinha tudo planeado e já tinha começado a prepara-los. Há uns 6 anos para cá tenho sido eu a fazer os presentes para oferecer, cabazes de natal com coisas doces e deliciosas. Unicamente o que compro são os brinquedos para os mais pequenos. Este ano, além de não ter planeado nada, ainda só comprei um presente para o meu filho. Shame on me...
Ainda não sei se farei alguma coisa para oferecer a alguém, visto que as minhas frequências na faculdade começam daqui a 3 semanas e ainda tenho tanto estudo atrasado. Mas esta semana logo me decido, consoante o tempo que tiver disponível.
Não sei o que se passa, eu que adoro ouvir músicas de natal e embevecer-me com elas por adorar esta época festiva, este ano estou numa deprimência que só visto! Ao ouvir músicas de natal relembro a euforia dos outros natais, sinto saudades de casa, do frio da minha cidade, da lareira nas tardes de sábado e domingo, de devorar livros e não me preocupar com mais nada, tenho saudades do silêncio e da paz daquela que foi a minha casa tantos anos. Engraçado, que enquanto lá estive (e não valorizei) achava aquilo tão deprimente e secante que hoje sentir saudades é algo quase irónico.
A única coisa que já fiz, tal como no ano passado, foi bolachinhas decoradas para oferecer aos meninos do IPO de Lisboa. Mas sobre isto falarei depois, quando sentir necessidade.
Talvez o espírito do natal se tenha atrasado, que nestas coisas nunca se sabe!
Quanto aos presentes que pedi este ano ao Pai Natal: fiz um único pedido e o mais sério dos meus 26 anos de existência. Vamos ver se me portei bem este ano para o receber.
ML
Até mesmo os presentes de natal ficaram pelo caminho. Nesta altura do ano já tinha tudo planeado e já tinha começado a prepara-los. Há uns 6 anos para cá tenho sido eu a fazer os presentes para oferecer, cabazes de natal com coisas doces e deliciosas. Unicamente o que compro são os brinquedos para os mais pequenos. Este ano, além de não ter planeado nada, ainda só comprei um presente para o meu filho. Shame on me...
Ainda não sei se farei alguma coisa para oferecer a alguém, visto que as minhas frequências na faculdade começam daqui a 3 semanas e ainda tenho tanto estudo atrasado. Mas esta semana logo me decido, consoante o tempo que tiver disponível.
Não sei o que se passa, eu que adoro ouvir músicas de natal e embevecer-me com elas por adorar esta época festiva, este ano estou numa deprimência que só visto! Ao ouvir músicas de natal relembro a euforia dos outros natais, sinto saudades de casa, do frio da minha cidade, da lareira nas tardes de sábado e domingo, de devorar livros e não me preocupar com mais nada, tenho saudades do silêncio e da paz daquela que foi a minha casa tantos anos. Engraçado, que enquanto lá estive (e não valorizei) achava aquilo tão deprimente e secante que hoje sentir saudades é algo quase irónico.
A única coisa que já fiz, tal como no ano passado, foi bolachinhas decoradas para oferecer aos meninos do IPO de Lisboa. Mas sobre isto falarei depois, quando sentir necessidade.
Talvez o espírito do natal se tenha atrasado, que nestas coisas nunca se sabe!
Quanto aos presentes que pedi este ano ao Pai Natal: fiz um único pedido e o mais sério dos meus 26 anos de existência. Vamos ver se me portei bem este ano para o receber.
ML
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Leva-me contigo
Estou tão cansada de ouvir tudo e todos, por entre silêncios e testas franzidas, que não vales a pena, que o nosso amor é demasiado pequeno para aguentar tamanha incerteza futura. Estou cansada de que os teus fantasmas nos impeçam de ser felizes, cansada de esperar que da tua boca muda saiam as palavras mágicas que irão provar a todos eles que mereces a oportunidade de ser feliz, que me mereces. Estou cansada de olhar à volta e ver-me a caminhar solitariamente e com um desespero desmedido em encontrar-me algures dentro de ti.
Será que os outros não vêem em ti o homem que eu vejo? O homem vergado pelas dores da adição mas que merece renascer, que merece uma nova oportunidade da vida para ser feliz? Porque é isso que eu vejo quando olho para ti!
Todos merecemos ser felizes, é para isso que, obrigatoriamente, andamos cá. Mas até que ponto tu queres essa felicidade, pergunto? Até onde estás disposto a caminhar para conquistar essa felicidade que é só tua e tão nossa ao mesmo tempo? Até onde vai a tua vontade de deixares cair a dor nas pedras da calçada da vida e mostrares-te ao mundo como um homem novo? Até onde merecemos pertencer-nos?
Esquecer-te seria a opção mais fácil, deixar-te para trás entregue à tua própria sorte e escolhas. Sim, eu disse bem, seria. Mas ainda aqui estou, à tua espera.
Consegues ouvir-me amor? Consegues olhar-me? Quem sou eu? Acaso consegues reconhecer-me por entre essa penumbra de entorpecimento?
Ainda estou aqui amor.
O meu colo espera-te cheio de calma e luz, o meu coração continua cheio de alimento que te poderá matar a sede de amor, os meus braços continuam cheios de força para te segurar e proteger, a minha alma continua aqui para completar a tua.
Por isso, vem buscar-me.
Leva-me para lá do arco-íris onde não existe tesouro maior do que a nossa felicidade; leva-me contigo para dentro do teu livro mais cor-de-rosa onde todos os teus dragões se tornam seres ridículos e onde príncipes e princesas não passam de coisas de criança; leva-me para a tua casa que tanto tornamos nossa; leva-me e deita-me na tua cama onde pertence o meu cheiro que beija o nosso sabor; leva-me contigo para um céu ou até mesmo para um inferno qualquer onde jamais larguemos as mãos.
Pega-nos ao colo e leva-nos que eu indicar-te-ei o caminho. Leva-nos até onde possamos parar e descansar, finalmente, no regaço da paz que tanto almejamos. Dá-me a tua mão e deixa-me conduzir-te até ao fundo do túnel onde possas ver que o sol nasce todos os dias: basta dizeres sim e eu estarei lá. Nada precisas dizer mais do que um "sim".
"Vai aonde te leva o coração", disse Susanna Tamaro. O meu ainda está aqui sentado na pedra à espera do teu.
Por favor, não demores.
ML
Será que os outros não vêem em ti o homem que eu vejo? O homem vergado pelas dores da adição mas que merece renascer, que merece uma nova oportunidade da vida para ser feliz? Porque é isso que eu vejo quando olho para ti!
Todos merecemos ser felizes, é para isso que, obrigatoriamente, andamos cá. Mas até que ponto tu queres essa felicidade, pergunto? Até onde estás disposto a caminhar para conquistar essa felicidade que é só tua e tão nossa ao mesmo tempo? Até onde vai a tua vontade de deixares cair a dor nas pedras da calçada da vida e mostrares-te ao mundo como um homem novo? Até onde merecemos pertencer-nos?
Esquecer-te seria a opção mais fácil, deixar-te para trás entregue à tua própria sorte e escolhas. Sim, eu disse bem, seria. Mas ainda aqui estou, à tua espera.
Consegues ouvir-me amor? Consegues olhar-me? Quem sou eu? Acaso consegues reconhecer-me por entre essa penumbra de entorpecimento?
Ainda estou aqui amor.
O meu colo espera-te cheio de calma e luz, o meu coração continua cheio de alimento que te poderá matar a sede de amor, os meus braços continuam cheios de força para te segurar e proteger, a minha alma continua aqui para completar a tua.
Por isso, vem buscar-me.
Leva-me para lá do arco-íris onde não existe tesouro maior do que a nossa felicidade; leva-me contigo para dentro do teu livro mais cor-de-rosa onde todos os teus dragões se tornam seres ridículos e onde príncipes e princesas não passam de coisas de criança; leva-me para a tua casa que tanto tornamos nossa; leva-me e deita-me na tua cama onde pertence o meu cheiro que beija o nosso sabor; leva-me contigo para um céu ou até mesmo para um inferno qualquer onde jamais larguemos as mãos.
Pega-nos ao colo e leva-nos que eu indicar-te-ei o caminho. Leva-nos até onde possamos parar e descansar, finalmente, no regaço da paz que tanto almejamos. Dá-me a tua mão e deixa-me conduzir-te até ao fundo do túnel onde possas ver que o sol nasce todos os dias: basta dizeres sim e eu estarei lá. Nada precisas dizer mais do que um "sim".
"Vai aonde te leva o coração", disse Susanna Tamaro. O meu ainda está aqui sentado na pedra à espera do teu.
Por favor, não demores.
ML
Subscrever:
Mensagens (Atom)