segunda-feira, 9 de junho de 2014

Sempre me confundiste, sabes? Aquela mania impertinente de me dares os teus chamados "bons conselhos" e depois agires ao contrário daquilo que me aconselhavas a fazer, aquela loucura desenfreada de me protegeres por ser "a menina" e depois meteres os pés pelas mãos porque davas o que não fazia sentido e não davas aquilo que realmente precisei durante estes anos todos: colo.
Confuso? Muito.
Foi sempre nesta base que cresci. E sabes o que me dói mais? É que depois de tudo o que se passou no último mês, em que viste aquilo que chamavas de "lar" desmoronar-se, não mudaste nadinha. Pensei eu, na minha ingenuidade, que depois de veres tudo aquilo em que acreditavas cair aos teus pés em pedaços, como uma redoma quebrada e preservada por ti durante anos, que irias arregalar bem os olhos e ver aquilo em que te tornaste ao longo do tempo; aquilo que nunca foste mas que ainda vais a tempo de o ser; todos os segredos podres que a tua casa guardava, e com isso crescesses e me alcançasses, aqui, onde estou.
Mas não. Continuas no mesmo circulo vicioso; habitas a mesma espiral que sempre habitaste, desde que te conheço por gente: vitimização e culpabilização dos outros por tudo de mau que te aconteceu e acontece na vida. E sabes que mais? Foi isso, a única coisa que me ensinaste: viver numa espiral de culpas e a vitima principal ser eu.
Lembras-te da nossa conversa de à 3 semanas atrás, depois da tua casa ter ido abaixo? Eu lembro-me: tu choravas compulsivamente como uma criança e eu abracei-te e fiz algo que nunca fizeste comigo; abri-me. Contei-te de tudo aquilo que me magoou estes anos todos, da solidão em que vivi, da falta de afeto, dos medos, das frustrações, do silêncio a que me remeti sempre que alguém ou alguma coisa me magoava, contei-te sobre as tuas falhas, contei-te os meus segredos. Depois foste tu que te abriste; "o que me levou à depressão foi ter visto, com os meus próprios olhos, que o teu casamento se desmoronou e eu não queria que isso acontecesse porque gosto muito dele e queria que fosses feliz", disseste-me tu. E depois disso, apertei-te contra mim e chorámos as duas; eu por estar aliviada e tu por estares magoada. Foram muitas revelações, eu sei.
Mas naquele dia eu vim para a minha casa, renovada de esperanças "finalmente, ela acordou para a vida!", e esperei que nos próximos dias pudéssemos conversar melhor sobre aquilo que me tinhas dito porque eu sei que naquele dia, não era o dia.
O dia foi ontem; voltámos a falar sobre a tua revelação. E foi aí que percebi que nada do que eu disse valeu a pena, e sabes porquê? Porque continuas a mesma.
Tu não percebes que a vida é minha e que as escolhas sou eu que as faço, sejam elas certas ou erradas. E a isso chama-se crescer. Em algum momento perguntaste-te "será que ela é feliz?". Não. Porque só te preocupaste com o que "querias". Mas tenho uma má notícia para ti: na minha vida tu não queres nada.
Deixa-me dizer-te que, apesar de não teres desempenhado o teu papel, eu cresci. E doeu para caraças! Tudo o que sei tive que descobrir por mim mesma, ver com os meus próprios olhos, apalpar, sentir, experimentar... Fui a minha própria mãe, sem saber muito bem como isso se fazia! Mas cheguei aqui. Não inteira, mas consciente daquilo que quero ser (feliz) e daquilo que não quero ser (como tu).
Parei de me vitimizar e por mais que, inconscientemente, me culpes pelo teu estado, eu não vou sentir essa culpa! Porque, tal como te disse ontem, a vida é minha e sou eu que comando o meu barco, sou eu que decido quem entra e quem sai. Sou eu que estou na minha própria pele; fui eu que passei por tudo aquilo que agora já sabes; fui eu que te carreguei ao colo durante este tempo todo sem perceber o porquê de estares assim, quando muitas vezes quem precisava de colo era eu. Estou cansada de ser para ti o que não soubeste ser para mim: mãe.
E por isso, eu decidi hoje que não me vou culpar, não vou permanecer mais na tua retaguarda à espera que mudes e que me enxergues de mulher para mulher, não vou deixar que o teu pranto se transforme num mediador das minhas decisões. Vou cuidar de mim, mãe: vou-me permitir ser feliz com aquilo que a vida me der; vou-me permitir sonhar e concretizar sem que me prendas as asas como fizeste toda a tua vida; vou-me permitir em ser aquilo que o meu filho precisar; vou-me permitir amar, a mim e aos outros, sem medo.
Medo; foi sempre o que te prendeu. A mim, ele não prende mais.





ML


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