Todos os dias deparo-me no facebook com frases pré-feitas sobre o julgamento que as pessoas fazem umas das outras, "dicas", indiretas das vítimas desses julgamentos para os algozes que os fazem. São frases que dão que pensar mas só por uns segundos porque logo a seguir aparece uma foto ou um "estado" de alguém que nos faz pensar "tssss olhem-me para isto, não tem vergonha" ou então "deve pensar que é boa/bom" ou então "txeee foi para a rambóia assim vestida/o?". E por muito que isto nos custe a engolir, é verdade, acontece. Já me aconteceu a mim, já aconteceu a ti, já aconteceu ao teu vizinho, acontece a toda a gente. Não vale a pena fazer-mo-nos de indignados e fingirmos que somos uns fofinhos e salvadores da honra dos outros porque muitas das vezes nem da nossa sabemos cuidar quanto mais da dos outros! A verdade é esta e não há outra: todos fazemos juízos de valor.
E porque é que isto acontece? Simples; porque nascemos já com essa tendência e crescemos com ela. A menos que alguém seja filho de algum aspirante a budista que esteja sempre zen com tudo e todos, mas até esses são seres humanos, portanto, consciente ou inconscientemente também fazem juízos de valor.
Vivermos em sociedade faz com que sejamos assim, estamos sempre a procurar a aprovação dos outros devido à necessidade de lhe pertencermos e por muito que tentemos emancipar-nos disso, não dá.
Isto não implica que não sejamos nós próprios, verdadeiros, nada disso, mas julgar os outros está tão intrínseco que é quase tão normal como respirarmos.
A boa notícia é que a passividade com que fazemos juízos de valor pode ser atenuada se nos esforçarmos para tal. Não é virarmos santos, não é nada disso! O atenuar a forma como julgamos os outros é um trabalho tal e qual como ir à escola, só que neste caso a escola é a vida e os professores são os outros. É na maneira como nós sabemos que olhamos para as atitudes e comportamentos dos outros que vamos buscar as ferramentas necessárias para trabalhar isso, é usar os outros como um espelho nosso porque, se pensarmos bem, todos nós somos o reflexo uns dos outros. O ditado é antigo e é bem certo "nas costas dos outros vemos as nossas" e a verdade é esta, é na convivência com eles que nos conhecemos porque ao fim ao cabo somos "todos diferentes mas todos iguais".
Por exemplo, aquelas amigas que se juntam para ir à missa, que comungam e que até costumam confessarem-se e que assim que saem da igreja uma diz para a outra "já viste a fulana tal? agora anda toda bem vestida, tem um marido em casa e filhos e eu soube pela ti Maria que o neto a costuma ver em bares e em bailaricos das terrinhas. Cá para mim anda a pôr os palitos ao pobre coitado e ele sem saber, é mesmo desenvergonhada!", quem é que já não ouviu este tipo de coisas ou já não foi vítima deste tipo de julgamento? A pergunta é, o marido é delas? E porque é que a mulher não pode sair para se divertir? Acaso a maneira de ver o casamento tem que ser igual à forma como elas o vêem? O facto de sair é sinal de que vai desrespeitar a família? E o andar bem vestida sai dos bolsos delas? Acaso a mulher lhes pede alguma coisa ou que lhes pague as dívidas ao final do mês? São elas que trabalham para meter comida na mesa em casa? Não, obviamente.
E se fosse ao contrário? Se fossem elas as vítimas desses julgamentos? Acaso iriam sentir-se bem?
Eu sei que a tentação é grande, sai-nos muitas vezes sem darmos por ela mas o importante é termos consciência de quando estamos a julgar o outro, parar para pensar e fazermos algo que é-nos tão difícil ainda: colocar-mo-nos no lugar dele, pensarmos de quando somos nós a estar naquela situação ou se algum dia estivéssemos nela se gostaríamos que os outros fizessem o mesmo tipo de julgamento acerca da nossa pessoa.
Quem não tiver telhados de vidro que atire a primeira pedra: isto serve para mim, para ti e para todos. E lembra-te, hoje és tu o juíz amanhã serás o julgado.
ML
sábado, 21 de março de 2015
sábado, 7 de março de 2015
Sim, odeio-o, e depois?
Nos dias que correm, o ser humano ainda se vê amarrado pelas emoções que o podem denegrir pudicamente perante a sociedade, ainda vive amarrado na vergonha de assumir as emoções negativas que possa sentir;em suma, continua refém de sim mesmo.
O ódio, esse sentimento supremo da escuridão, esse sentimento rejeitado na boca de muitos mas habitável em muitos corações, é uma das muitas emoções negativas que a sociedade rejeita mas alimenta, dia após dia. A maior parte dos comuns mortais já sentiu ou sente ódio de alguém ou de alguma coisa, quanto mais não seja de si próprio. E eu não sou excepção.
Até há pouco tempo eu desconhecia esse sentimento tão poderoso e o que ele era capaz de fazer com a mente e com o coração. Mas como muitas coisas na vida, é preciso viver e experienciar para conhecermos não só o poder dessas mesmas coisas mas também nos testarmos enquanto seres humanos dotados de emoções à flor da pele. E digo "à flor da pele" porque até o ser mais controlado tem um saco que enche e explode.
Mas há uma coisa que muita gente não sabe e que eu só descobri depois de ter sentido, pela primeira vez, ódio no coração: é imprescindível aceitarmos que ele está lá. O ódio é como uma doença; tem a sua fase inicial em que surge no coração de mansinho, sem avisar, vai sendo alimentado inconscientemente até saturar todas as células da mente e da alma, passando pela fase da manifestação com as suas crises de negação e, quiçá, se não for tratada, ser capaz de conspurcar o que resta de nós até nos levar à loucura. Daqui até à morte é uma questão de nada.
Em psicologia, aprendi que a aceitação é um passo fundamental e central para qualquer mudança, seja ela de que teor for. Se é fácil? Não, não é. Às vezes vive-se anos e anos enclausurado numa panóplia de sentimentos destrutivos, vive-se constantemente num conflito interno por se querer aceitar uma determinada coisa e as emoções deturparem a mente de tal maneira que nos impede de avançar para o passo da aceitação. É uma luta intensa e constante, sem dúvida. E eu conheço tão bem essa luta interna...
É uma luta que desgasta, que me faz olhar no espelho e não me reconhecer; o que era outrora doce, meigo, dado, tornou-se amargo, frio, revoltado. É uma luta que me faz ter medo do "e se eu não vencer?". É uma luta ingrata entre o querer e não poder. É uma luta diária e, sobretudo, consciente.
Mas para chegar até à parte da "luta" é preciso entrar no processo primário de aceitação daquilo que se sente.
Como é que se trata uma doença sem se aceitar que ela vive em simbiose connosco? Impossível. Podem-se ingerir todos os medicamentos, os melhores do mercado, mas dificilmente a doença se cura porque toda a doença tem o seu gérmen na alma. Portanto, cura do corpo sem a cura do espírito é uma brincadeira de médicos, somente.
É verdade, eu odeio-o. E depois? Vou dizer ao mundo que não? Para quê? Dos outros eu posso fugir mas de mim nunca. Eu poderia fingir perante os outros que tenho um coração puro, que ódio aqui não entra, que sou muito melhor que isso, que isso é para gente reles e pequenina de mente e blá blá blá whiskas saquetas. Mas aquilo que os outros possam pensar de mim pode atenuar ou melhorar aquilo que de mais podre eu sinto? Não. Porque não é o mundo que me carrega, sou eu mesma. E sou eu que apodreço dia após dia, não os outros.
O mundo só serve para nos dar aquilo que precisamos para crescer e aprender a sermos melhores do que éramos. O resto sai-nos do couro.
A escolha foi minha. A escolha é sempre de cada um. Aceitar o que se sente com verdade e depois partir para o tratamento, ou então fingir que nada se sente e pintar a imagem de pureza interior numa tela que sempre será um mundo estático e que nunca será nosso porque o nosso, felizmente, roda.
Eu sei que o odeio e sei que isso me magoa mais a mim do que a ele, porque o que ele me fez não pode ser alterado ou desfeito. Perdoa-lo depende de mim.
O perdão é uma luta que só o corajoso trava com a sua sombra, e demore o tempo que demorar o vencedor será sempre ele. Mas mais do que isso, não quero odiar para um dia ser odiada.
O nosso mundo roda, não é estático. Tudo o que damos a vida devolve-nos em dobro e desta máxima só foge quem é tolo.
ML
sábado, 10 de janeiro de 2015
Urgência!
Sinto uma urgência de colo, de ser engolida pela mãe terra e ficar no seu ventre, regredindo por todos os estágios que percorri desde a concepção até hoje, sinto necessidade de voltar a sentir-me raiz mas desta vez não de uma mulher, e sim de mim mesma.
Sinto uma urgência de ficar alojada numa parede qualquer da vida e ser alimentada durante 9 momentos, e depois, ser parida pela mãe terra e dar um novo grito à luz da vida.
Sinto uma urgência de ser embalada com ausência de canções, de ficar simplesmente aninhada nuns braços quaisquer e sentir-me pequenina sem ser cobrada por isso.
Sinto urgência de ficar calada no meio de gritos ensurdecedores que me corroem a alma, de fininho e sem ninguém ver.
Sinto urgência de morrer e renascer, sem passar pelo pó. Porque ainda tenho tanto para desbravar.
Sinto que tenho o mundo para explorar, e visto daqui debaixo tudo me parece tão grande e imenso, tão intenso e assustador.
Sinto urgência de esquecer que eu existo e que até mesmo tu algum dia exististe na minha vida. Sim, falemos em passado porque já estás do lado de fora da porta com ela fechada e trancada a 8 chaves (contando com a suplente).
Eu tenho urgência em culpar-te por toda a dor que sinto e pela pessoa amarga que vejo, de dia para dia, agigantar-se em mim. Mas depois lembro-me que a estupidez foi minha em ignorar os sinais do óbvio e lembro-me também da maior sequela que carrego no ventre.
Poderia fazer o que sempre fiz com outras dores passadas: fingir que não dói, ignorar a ferida aberta e seguir caminho mesmo que isso implicasse repetir os mesmos erros e voltar a passar por tudo outra vez. Desta vez, a proporção é maior. A dor é gigante demais para caber debaixo de um tapete. Tudo está tão negro, tão dorido, tão enraivecido em mim que faltam-me as palavras para expressar algo que eu sempre soube fazer na perfeição: a dor.
Neste momento, e pela primeira vez na vida, estou a obrigar-me a senti-la como todas as dores devem ser sentidas. Só assim, finalmente, começarei a aprender com os meus erros.
Culpar-te é tão pouco comparado com aquilo que a vida te vai oferecer de volta, por isso de nada me adianta, em nada me ameniza.
Como a minha melhor amiga diz, e tão sabiamente, "sentir é o que te esta a deitar abaixo, mas é também o que te está a fazer viva a cada dia". E por muito negro que o horizonte se aviste, esta é uma verdade irrefutável que deve ser lembrada todos os dias da minha vida.
ML
Sinto uma urgência de ficar alojada numa parede qualquer da vida e ser alimentada durante 9 momentos, e depois, ser parida pela mãe terra e dar um novo grito à luz da vida.
Sinto uma urgência de ser embalada com ausência de canções, de ficar simplesmente aninhada nuns braços quaisquer e sentir-me pequenina sem ser cobrada por isso.
Sinto urgência de ficar calada no meio de gritos ensurdecedores que me corroem a alma, de fininho e sem ninguém ver.
Sinto urgência de morrer e renascer, sem passar pelo pó. Porque ainda tenho tanto para desbravar.
Sinto que tenho o mundo para explorar, e visto daqui debaixo tudo me parece tão grande e imenso, tão intenso e assustador.
Sinto urgência de esquecer que eu existo e que até mesmo tu algum dia exististe na minha vida. Sim, falemos em passado porque já estás do lado de fora da porta com ela fechada e trancada a 8 chaves (contando com a suplente).
Eu tenho urgência em culpar-te por toda a dor que sinto e pela pessoa amarga que vejo, de dia para dia, agigantar-se em mim. Mas depois lembro-me que a estupidez foi minha em ignorar os sinais do óbvio e lembro-me também da maior sequela que carrego no ventre.
Poderia fazer o que sempre fiz com outras dores passadas: fingir que não dói, ignorar a ferida aberta e seguir caminho mesmo que isso implicasse repetir os mesmos erros e voltar a passar por tudo outra vez. Desta vez, a proporção é maior. A dor é gigante demais para caber debaixo de um tapete. Tudo está tão negro, tão dorido, tão enraivecido em mim que faltam-me as palavras para expressar algo que eu sempre soube fazer na perfeição: a dor.
Neste momento, e pela primeira vez na vida, estou a obrigar-me a senti-la como todas as dores devem ser sentidas. Só assim, finalmente, começarei a aprender com os meus erros.
Culpar-te é tão pouco comparado com aquilo que a vida te vai oferecer de volta, por isso de nada me adianta, em nada me ameniza.
Como a minha melhor amiga diz, e tão sabiamente, "sentir é o que te esta a deitar abaixo, mas é também o que te está a fazer viva a cada dia". E por muito negro que o horizonte se aviste, esta é uma verdade irrefutável que deve ser lembrada todos os dias da minha vida.
ML
sábado, 13 de dezembro de 2014
Onde andas espírito do Natal?
Não sei o que se passa este ano. Não me sinto próxima do natal. Eu, que faço a árvore sempre no dia 1 de novembro por desde miúda achar que a casa enfeitada durava tão pouco tempo, este ano só a fiz no inicio de dezembro.
Até mesmo os presentes de natal ficaram pelo caminho. Nesta altura do ano já tinha tudo planeado e já tinha começado a prepara-los. Há uns 6 anos para cá tenho sido eu a fazer os presentes para oferecer, cabazes de natal com coisas doces e deliciosas. Unicamente o que compro são os brinquedos para os mais pequenos. Este ano, além de não ter planeado nada, ainda só comprei um presente para o meu filho. Shame on me...
Ainda não sei se farei alguma coisa para oferecer a alguém, visto que as minhas frequências na faculdade começam daqui a 3 semanas e ainda tenho tanto estudo atrasado. Mas esta semana logo me decido, consoante o tempo que tiver disponível.
Não sei o que se passa, eu que adoro ouvir músicas de natal e embevecer-me com elas por adorar esta época festiva, este ano estou numa deprimência que só visto! Ao ouvir músicas de natal relembro a euforia dos outros natais, sinto saudades de casa, do frio da minha cidade, da lareira nas tardes de sábado e domingo, de devorar livros e não me preocupar com mais nada, tenho saudades do silêncio e da paz daquela que foi a minha casa tantos anos. Engraçado, que enquanto lá estive (e não valorizei) achava aquilo tão deprimente e secante que hoje sentir saudades é algo quase irónico.
A única coisa que já fiz, tal como no ano passado, foi bolachinhas decoradas para oferecer aos meninos do IPO de Lisboa. Mas sobre isto falarei depois, quando sentir necessidade.
Talvez o espírito do natal se tenha atrasado, que nestas coisas nunca se sabe!
Quanto aos presentes que pedi este ano ao Pai Natal: fiz um único pedido e o mais sério dos meus 26 anos de existência. Vamos ver se me portei bem este ano para o receber.
ML
Até mesmo os presentes de natal ficaram pelo caminho. Nesta altura do ano já tinha tudo planeado e já tinha começado a prepara-los. Há uns 6 anos para cá tenho sido eu a fazer os presentes para oferecer, cabazes de natal com coisas doces e deliciosas. Unicamente o que compro são os brinquedos para os mais pequenos. Este ano, além de não ter planeado nada, ainda só comprei um presente para o meu filho. Shame on me...
Ainda não sei se farei alguma coisa para oferecer a alguém, visto que as minhas frequências na faculdade começam daqui a 3 semanas e ainda tenho tanto estudo atrasado. Mas esta semana logo me decido, consoante o tempo que tiver disponível.
Não sei o que se passa, eu que adoro ouvir músicas de natal e embevecer-me com elas por adorar esta época festiva, este ano estou numa deprimência que só visto! Ao ouvir músicas de natal relembro a euforia dos outros natais, sinto saudades de casa, do frio da minha cidade, da lareira nas tardes de sábado e domingo, de devorar livros e não me preocupar com mais nada, tenho saudades do silêncio e da paz daquela que foi a minha casa tantos anos. Engraçado, que enquanto lá estive (e não valorizei) achava aquilo tão deprimente e secante que hoje sentir saudades é algo quase irónico.
A única coisa que já fiz, tal como no ano passado, foi bolachinhas decoradas para oferecer aos meninos do IPO de Lisboa. Mas sobre isto falarei depois, quando sentir necessidade.
Talvez o espírito do natal se tenha atrasado, que nestas coisas nunca se sabe!
Quanto aos presentes que pedi este ano ao Pai Natal: fiz um único pedido e o mais sério dos meus 26 anos de existência. Vamos ver se me portei bem este ano para o receber.
ML
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Leva-me contigo
Estou tão cansada de ouvir tudo e todos, por entre silêncios e testas franzidas, que não vales a pena, que o nosso amor é demasiado pequeno para aguentar tamanha incerteza futura. Estou cansada de que os teus fantasmas nos impeçam de ser felizes, cansada de esperar que da tua boca muda saiam as palavras mágicas que irão provar a todos eles que mereces a oportunidade de ser feliz, que me mereces. Estou cansada de olhar à volta e ver-me a caminhar solitariamente e com um desespero desmedido em encontrar-me algures dentro de ti.
Será que os outros não vêem em ti o homem que eu vejo? O homem vergado pelas dores da adição mas que merece renascer, que merece uma nova oportunidade da vida para ser feliz? Porque é isso que eu vejo quando olho para ti!
Todos merecemos ser felizes, é para isso que, obrigatoriamente, andamos cá. Mas até que ponto tu queres essa felicidade, pergunto? Até onde estás disposto a caminhar para conquistar essa felicidade que é só tua e tão nossa ao mesmo tempo? Até onde vai a tua vontade de deixares cair a dor nas pedras da calçada da vida e mostrares-te ao mundo como um homem novo? Até onde merecemos pertencer-nos?
Esquecer-te seria a opção mais fácil, deixar-te para trás entregue à tua própria sorte e escolhas. Sim, eu disse bem, seria. Mas ainda aqui estou, à tua espera.
Consegues ouvir-me amor? Consegues olhar-me? Quem sou eu? Acaso consegues reconhecer-me por entre essa penumbra de entorpecimento?
Ainda estou aqui amor.
O meu colo espera-te cheio de calma e luz, o meu coração continua cheio de alimento que te poderá matar a sede de amor, os meus braços continuam cheios de força para te segurar e proteger, a minha alma continua aqui para completar a tua.
Por isso, vem buscar-me.
Leva-me para lá do arco-íris onde não existe tesouro maior do que a nossa felicidade; leva-me contigo para dentro do teu livro mais cor-de-rosa onde todos os teus dragões se tornam seres ridículos e onde príncipes e princesas não passam de coisas de criança; leva-me para a tua casa que tanto tornamos nossa; leva-me e deita-me na tua cama onde pertence o meu cheiro que beija o nosso sabor; leva-me contigo para um céu ou até mesmo para um inferno qualquer onde jamais larguemos as mãos.
Pega-nos ao colo e leva-nos que eu indicar-te-ei o caminho. Leva-nos até onde possamos parar e descansar, finalmente, no regaço da paz que tanto almejamos. Dá-me a tua mão e deixa-me conduzir-te até ao fundo do túnel onde possas ver que o sol nasce todos os dias: basta dizeres sim e eu estarei lá. Nada precisas dizer mais do que um "sim".
"Vai aonde te leva o coração", disse Susanna Tamaro. O meu ainda está aqui sentado na pedra à espera do teu.
Por favor, não demores.
ML
Será que os outros não vêem em ti o homem que eu vejo? O homem vergado pelas dores da adição mas que merece renascer, que merece uma nova oportunidade da vida para ser feliz? Porque é isso que eu vejo quando olho para ti!
Todos merecemos ser felizes, é para isso que, obrigatoriamente, andamos cá. Mas até que ponto tu queres essa felicidade, pergunto? Até onde estás disposto a caminhar para conquistar essa felicidade que é só tua e tão nossa ao mesmo tempo? Até onde vai a tua vontade de deixares cair a dor nas pedras da calçada da vida e mostrares-te ao mundo como um homem novo? Até onde merecemos pertencer-nos?
Esquecer-te seria a opção mais fácil, deixar-te para trás entregue à tua própria sorte e escolhas. Sim, eu disse bem, seria. Mas ainda aqui estou, à tua espera.
Consegues ouvir-me amor? Consegues olhar-me? Quem sou eu? Acaso consegues reconhecer-me por entre essa penumbra de entorpecimento?
Ainda estou aqui amor.
O meu colo espera-te cheio de calma e luz, o meu coração continua cheio de alimento que te poderá matar a sede de amor, os meus braços continuam cheios de força para te segurar e proteger, a minha alma continua aqui para completar a tua.
Por isso, vem buscar-me.
Leva-me para lá do arco-íris onde não existe tesouro maior do que a nossa felicidade; leva-me contigo para dentro do teu livro mais cor-de-rosa onde todos os teus dragões se tornam seres ridículos e onde príncipes e princesas não passam de coisas de criança; leva-me para a tua casa que tanto tornamos nossa; leva-me e deita-me na tua cama onde pertence o meu cheiro que beija o nosso sabor; leva-me contigo para um céu ou até mesmo para um inferno qualquer onde jamais larguemos as mãos.
Pega-nos ao colo e leva-nos que eu indicar-te-ei o caminho. Leva-nos até onde possamos parar e descansar, finalmente, no regaço da paz que tanto almejamos. Dá-me a tua mão e deixa-me conduzir-te até ao fundo do túnel onde possas ver que o sol nasce todos os dias: basta dizeres sim e eu estarei lá. Nada precisas dizer mais do que um "sim".
"Vai aonde te leva o coração", disse Susanna Tamaro. O meu ainda está aqui sentado na pedra à espera do teu.
Por favor, não demores.
ML
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Ensaio sobre a felicidade
Como é que se é feliz? Qual a fórmula? Existe alguma?
A ciência, essa pioneira em descobertas e novidades; essa mulher sem rosto capaz de enlouquecer homens de todas as nações, capaz de desorientar pobres e ricos, capaz de provocar ruídos e pasmos ensurdecedores; esse capricho obsessivo que faz refém quem a respira. E ainda assim, não encontrou o pózinho de perlimpimpim para poderes comprar meio quilo ou duas toneladas de felicidade numa loja à tua beira.
Existem três categorias de pessoas: as que dizem que vêem a felicidade todos os dias, que se levantam e se deitam de mãos dadas com ela (não vá a menina fugir!); as que dizem que nunca a viram, não lhe reconhecem nem rosto nem forma e criticam os que julgam tê-la por se tratar de uma ilusão; e ainda as indecisas (e parvas também) por julgarem nunca se terem cruzado com ela mas que a imaginam e acreditam com a força (e coragem) profunda que vem da mais pequena partícula da alma de que ser-se feliz deve ser maravilhoso e que lutam todos os dias para, quiçá, arrebatá-la para todo o sempre (tipo euro-milhões 'tás a ver?).
Eu não sou moça dada à ciência porque eu cá não sou refém de porra nenhuma. Eu e ela temos uma relação familiar q.b., por isso não há abusos nem açambarcamentos de nenhuma das partes porque há todo um bom senso em mim que sabe distinguir o que é da alma e o que é dos homens. E da alma a ciência não percebe nada.
Poderíamos pensar na felicidade como um ensaio (e não, não é sobre a cegueira de Saramago). Recriávamos um reallity show do tipo "Ser feliz por um dia" e durante um dia fingíamos ser felizes. Podíamos fingir que somos ricos/as e que temos uma casa com piscina virada para o Guincho. que temos todo um rol de criaturas a rastejar (tipo lagartos) atrás de nós a desejarem até as nossas vísceras, que temos um famosozeco qualquer como marido ou uma barbie falsificada como esposa que nos gala e trata como príncipes ou princesas de última geração, podíamos até mandar fechar um shopping inteiro só para fazermos compras em silêncio sem atrapalhação nenhuma (só nós e as moscas), ou então viajar durante uma semana e recriar a versão "à procura de nemo" mas em formato estupidez "à procura da felicidade". Temo que mesmo assim não saberíamos o que é a felicidade; tudo não passaria de uma coisa fingida e forçada...por um dia.
Particularmente, eu já pertenci às três categorias citadas acima e neste momento encontro-me na categoria do "a caminho". Uma coisa eu já percebi, é que a felicidade não se encontra, não se compra e nem se ganha: constrói-se.
O meu conceito de felicidade passa por três fases: percepção, construção e consumação. A fase da percepção é quando passamos de ignorantes a despertos, é quando percepcionamos a felicidade em momentos, gestos, sons. paisagens, lugares, é quando deixamos de acreditar que a felicidade passa pelos outros e assumimos a responsabilidade de que ela depende de nós.
A fase posterior (e aquela onde me encontro presentemente) é a de construção, e esta sim é o mais longo e difícil processo da nossa vida porque implica alargar a linha de visão obrigando-nos a olhar não só em frente mas também para os lados, implica sermos humildes e aceitarmos as nossas próprias limitações, implica assumir-mo-nos com tudo aquilo que temos e somos e percebermos o que queremos ter e quem queremos ser no futuro, implica estabelecer um compromisso com e para a vida, implica tentativas/erros e com isso crescer sem culpas.
Por fim a fase da consumação, e para chegar aqui é uma questão de coisa pouca porque à medida que a felicidade vai sendo construída vamos experimentando a sensação de a sentir pois ela vem sempre de dentro para fora e o saber olhar-mo-nos e aceitarmo-nos é meio caminho andado para a conquistar.
Acredito que não existe melhor sensação do que vivermos bem connosco mesmos; e eis "o segredo" da felicidade. Lá chegarei!
A felicidade é também um ensaio sobre a cegueira de nós mesmos, sim, mas principalmente é um ensaio para a alma e cada vida é um ensaio, somados a outros, em busca desse tesouro que habita nela.
Perdemos tanto tempo à procura dos outros para alimentar a nossa felicidade, procuramos tanto essa sensação por ruas e vielas obscuras, perdemo-nos tanto de nós mal dizendo da felicidade que tarda em chegar, cegamo-nos com a ilusão de que ela existe algures para ser encontrada ou comprada e quando damos conta o tempo de ensaio terminou e temos que esperar por outra oportunidade cósmica para recomeçar a procura, outra vez.
Acredito que um dia, todos vamos perceber que a felicidade não é um modo: é um estado. Até lá, vamos ensaiando as vezes que forem precisas até acertarmos na fórmula universal de cada um.
ML
A ciência, essa pioneira em descobertas e novidades; essa mulher sem rosto capaz de enlouquecer homens de todas as nações, capaz de desorientar pobres e ricos, capaz de provocar ruídos e pasmos ensurdecedores; esse capricho obsessivo que faz refém quem a respira. E ainda assim, não encontrou o pózinho de perlimpimpim para poderes comprar meio quilo ou duas toneladas de felicidade numa loja à tua beira.
Existem três categorias de pessoas: as que dizem que vêem a felicidade todos os dias, que se levantam e se deitam de mãos dadas com ela (não vá a menina fugir!); as que dizem que nunca a viram, não lhe reconhecem nem rosto nem forma e criticam os que julgam tê-la por se tratar de uma ilusão; e ainda as indecisas (e parvas também) por julgarem nunca se terem cruzado com ela mas que a imaginam e acreditam com a força (e coragem) profunda que vem da mais pequena partícula da alma de que ser-se feliz deve ser maravilhoso e que lutam todos os dias para, quiçá, arrebatá-la para todo o sempre (tipo euro-milhões 'tás a ver?).
Eu não sou moça dada à ciência porque eu cá não sou refém de porra nenhuma. Eu e ela temos uma relação familiar q.b., por isso não há abusos nem açambarcamentos de nenhuma das partes porque há todo um bom senso em mim que sabe distinguir o que é da alma e o que é dos homens. E da alma a ciência não percebe nada.
Poderíamos pensar na felicidade como um ensaio (e não, não é sobre a cegueira de Saramago). Recriávamos um reallity show do tipo "Ser feliz por um dia" e durante um dia fingíamos ser felizes. Podíamos fingir que somos ricos/as e que temos uma casa com piscina virada para o Guincho. que temos todo um rol de criaturas a rastejar (tipo lagartos) atrás de nós a desejarem até as nossas vísceras, que temos um famosozeco qualquer como marido ou uma barbie falsificada como esposa que nos gala e trata como príncipes ou princesas de última geração, podíamos até mandar fechar um shopping inteiro só para fazermos compras em silêncio sem atrapalhação nenhuma (só nós e as moscas), ou então viajar durante uma semana e recriar a versão "à procura de nemo" mas em formato estupidez "à procura da felicidade". Temo que mesmo assim não saberíamos o que é a felicidade; tudo não passaria de uma coisa fingida e forçada...por um dia.
Particularmente, eu já pertenci às três categorias citadas acima e neste momento encontro-me na categoria do "a caminho". Uma coisa eu já percebi, é que a felicidade não se encontra, não se compra e nem se ganha: constrói-se.
O meu conceito de felicidade passa por três fases: percepção, construção e consumação. A fase da percepção é quando passamos de ignorantes a despertos, é quando percepcionamos a felicidade em momentos, gestos, sons. paisagens, lugares, é quando deixamos de acreditar que a felicidade passa pelos outros e assumimos a responsabilidade de que ela depende de nós.
A fase posterior (e aquela onde me encontro presentemente) é a de construção, e esta sim é o mais longo e difícil processo da nossa vida porque implica alargar a linha de visão obrigando-nos a olhar não só em frente mas também para os lados, implica sermos humildes e aceitarmos as nossas próprias limitações, implica assumir-mo-nos com tudo aquilo que temos e somos e percebermos o que queremos ter e quem queremos ser no futuro, implica estabelecer um compromisso com e para a vida, implica tentativas/erros e com isso crescer sem culpas.
Por fim a fase da consumação, e para chegar aqui é uma questão de coisa pouca porque à medida que a felicidade vai sendo construída vamos experimentando a sensação de a sentir pois ela vem sempre de dentro para fora e o saber olhar-mo-nos e aceitarmo-nos é meio caminho andado para a conquistar.
Acredito que não existe melhor sensação do que vivermos bem connosco mesmos; e eis "o segredo" da felicidade. Lá chegarei!
A felicidade é também um ensaio sobre a cegueira de nós mesmos, sim, mas principalmente é um ensaio para a alma e cada vida é um ensaio, somados a outros, em busca desse tesouro que habita nela.
Perdemos tanto tempo à procura dos outros para alimentar a nossa felicidade, procuramos tanto essa sensação por ruas e vielas obscuras, perdemo-nos tanto de nós mal dizendo da felicidade que tarda em chegar, cegamo-nos com a ilusão de que ela existe algures para ser encontrada ou comprada e quando damos conta o tempo de ensaio terminou e temos que esperar por outra oportunidade cósmica para recomeçar a procura, outra vez.
Acredito que um dia, todos vamos perceber que a felicidade não é um modo: é um estado. Até lá, vamos ensaiando as vezes que forem precisas até acertarmos na fórmula universal de cada um.
ML
sábado, 25 de outubro de 2014
O valor da saudade
Desde pequenos que aprendemos que a saudade dói. E não deixa de ser verdade, até certo ponto.
A saudade é um sentimento de ausência, é um querer estar ou ter e não poder, é uma janela que nunca se fecha. Por norma, a saudade tem uma conotação má, uma sensação tão negativa que o ser humano aprende, desde cedo, a combater ao longo da vida.
Por influência social? Talvez.
Desde cedo vemos à nossa volta os que a sentem e como a sentem, e quase sempre é através de lágrimas e lamentos. Com isso crescemos e desenvolvemos todas as armas para a combater como se fosse um germe, um vírus, uma epidemia urgente de erradicar; como se a saudade pudesse instalar-se em cada célula, desenvolver resistência genética e propagar-se pelo corpo até corroer a alma e levar-nos o último sopro.
Mas apesar do hábito que criamos em relação à forma como os outros vivem a saudade, acredito que é possível alterar esse pensamento deturpado e em vez de sentirmos uma saudade como um sentimento devastador, pesado e vazio, é possível permitir-mo-nos sentir uma saudade que nos pode dar um tanto de bom. Para isso só é preciso duas coisas: deixarmos de ser parvos e sentirmos.
Todos os dias permito-me sentir a saudade. Saudade do homem que amo, do meu filho, do meu avô. E aqui temos três saudades distintas:
Saudade do homem que amo
Separam-nos 40 min de distância (Lisboa-Cascais). A qualquer hora podemos estar juntos, mas além disso temos um telemóvel e um computador que facilita a comunicação entre os dois. Ainda assim, ambos sentimos a saudade constante do querer estar do lado, agarrar a mão e não larga-la mais, o deixarmos de ser gente e passarmos a ser lapas em simbiose. Ao invés disso sabemos viver em individualidade (porque é obrigatório nunca deixarmos de ser "eu") conjugada com o "nós" e a saudade é só uma consequência do respeitarmos esse equilíbrio que qualquer relação a dois deve ter.
Se dói? Muito. Está na nossa natureza contrariarmos tudo o que nos possa provocar dor e a ausência provoca-a. Mas é aqui que entra o saber sentir: a melhor coisa que um casal pode sentir é a saudade. A saudade de voltar a reencontrarem-se ao fim do dia, depois de um dia extenuante perdidos na individualidade e nos sonhos de cada um, como se um fosse a bússola do outro pronta para apontar o Norte comum dos dois; a saudade do beijo e do abraço que nos encaixa de novo no puzzle do "nós"; a saudade de voltarmos a pertencer aos olhos do outro; a saudade de beber da fonte viva que é o coração do outro; a saudade de tocar no corpo onde vive metade de nós.
Eu sinto isto contigo e, oh meu Deus, como é bom sentir! Todos os dias aprendo mais e melhor a sentir a saudade porque é com ela que também aprendo a degustar todos os nossos momentos, é com ela que sei que o caminho faz-se andando de mão dada contigo e é com ela que tenho a certeza de que o amor que temos está vivo e bem de saúde.
Se muitos casais conseguissem olhar para a saudade como nós conseguimos olhar para a nossa o amor seria sempre saudável e existiriam menos divórcios. Porque o que estraga o amor é a ausência sim; da saudade.
Temos a virtude da insatisfação que nos leva a procurar a novidade, a descobrir o desconhecido, o que também nos leva ao defeito de que o que não é novo passa a desinteressante. E numa relação a dois esse é o maior desafio: descobrir e procurar o que ainda não conhecemos. O melhor mecanismo? A saudade, sem dúvida. Ela é o motor que nos faz percorrer distâncias para do longe fazer-se o perto, e isso não serve só para distâncias físicas mas também emocionais.
Saudade do meu filho
Sou uma mulher abençoada por te ter e faço questão de to mostrar todos os dias, mesmo quando esses dias não são tão bons. E a verdade é que já o dia vai a meio e só me apetece chegar a casa, abraçar-te e sentir esse cheiro de bebé quase extinto mas que ainda consigo sentir, beijar as tuas bochechas mai' lindas que fazem covinhas quando sorris (como as minhas), de sentir o teu abraço apertado (que quase me sufoca de tanto apertares o meu pescoço). Contigo o valor da saudade é ainda maior porque tu és um pedaço meu, literalmente. E sem ti não existiria nenhum ponto cardeal na minha vida, não haveria bússola capaz de me manter em terra. Ainda assim, a saudade diária que tenho de ti é tão boa que nos permite amar-mo-nos melhor quando voltamos para os braços um do outro.
Prometo-te que farei questão de a manter como a vivemos, mesmo quando voares para fora do ninho. Mas posso só pedir-te um favor, meu amor pequenino? Cresce devagarinho, sim?
Saudade do meu avô (o meu eterno ídolo)
Esta saudade é a que me dói mais. Porque ver-te implica fazer um esforço enorme por ter poucos flashes da tua fisionomia. Não fossem as fotografias guardadas pelo tempo e não me lembraria ao certo de como eras (eu era tão pequena quando me deixaste).
Tu sabes que falar de ti não é fácil mas é um orgulho que me deixa um embargo na voz. E apesar da saudade ser boa porque me relembra que estou viva, a que tenho de ti é uma aprendizagem contínua. Há dias em que ela me faz bem mas há outros em que ela me vence. Não é fácil encontrar um lado positivo na saudade de quem já não está, de quem amamos e não podemos ouvir ou abraçar. Mas sabes que mais? Esse lado existe. A saudade que tenho de ti obriga-me a aprimorar os cinco sentidos (e até o sexto!) que me permitem sentir-te por perto, ouvir-te, abraçar-te, conversar contigo. Já te disse que o amor faz milagres?
É a saudade que tenho de ti que nos ligará para sempre, é ela que alimenta o nosso amor todos os dias da minha vida, é ela que me ensina a amar mais e melhor os outros que cá estão e é ela que me conduzirá de volta aos teus braços quando a minha missão entrar em modo "the end". Espera-me, sim?
Perante isto, só posso concluir uma coisa: o valor da saudade tem muito mais de bom do que de mau. A saudade tem o valor que lhe quisermos dar.
No meu conceito, a saudade é amar com sabedoria, mas sobretudo é sermos corajosos para a sentir.
Não fosse ela e o valor do ter e do pertencer não tinham razão de existir. E é pertencendo que nos humanizamos.
ML
A saudade é um sentimento de ausência, é um querer estar ou ter e não poder, é uma janela que nunca se fecha. Por norma, a saudade tem uma conotação má, uma sensação tão negativa que o ser humano aprende, desde cedo, a combater ao longo da vida.
Por influência social? Talvez.
Desde cedo vemos à nossa volta os que a sentem e como a sentem, e quase sempre é através de lágrimas e lamentos. Com isso crescemos e desenvolvemos todas as armas para a combater como se fosse um germe, um vírus, uma epidemia urgente de erradicar; como se a saudade pudesse instalar-se em cada célula, desenvolver resistência genética e propagar-se pelo corpo até corroer a alma e levar-nos o último sopro.
Mas apesar do hábito que criamos em relação à forma como os outros vivem a saudade, acredito que é possível alterar esse pensamento deturpado e em vez de sentirmos uma saudade como um sentimento devastador, pesado e vazio, é possível permitir-mo-nos sentir uma saudade que nos pode dar um tanto de bom. Para isso só é preciso duas coisas: deixarmos de ser parvos e sentirmos.
Todos os dias permito-me sentir a saudade. Saudade do homem que amo, do meu filho, do meu avô. E aqui temos três saudades distintas:
Saudade do homem que amo
Separam-nos 40 min de distância (Lisboa-Cascais). A qualquer hora podemos estar juntos, mas além disso temos um telemóvel e um computador que facilita a comunicação entre os dois. Ainda assim, ambos sentimos a saudade constante do querer estar do lado, agarrar a mão e não larga-la mais, o deixarmos de ser gente e passarmos a ser lapas em simbiose. Ao invés disso sabemos viver em individualidade (porque é obrigatório nunca deixarmos de ser "eu") conjugada com o "nós" e a saudade é só uma consequência do respeitarmos esse equilíbrio que qualquer relação a dois deve ter.
Se dói? Muito. Está na nossa natureza contrariarmos tudo o que nos possa provocar dor e a ausência provoca-a. Mas é aqui que entra o saber sentir: a melhor coisa que um casal pode sentir é a saudade. A saudade de voltar a reencontrarem-se ao fim do dia, depois de um dia extenuante perdidos na individualidade e nos sonhos de cada um, como se um fosse a bússola do outro pronta para apontar o Norte comum dos dois; a saudade do beijo e do abraço que nos encaixa de novo no puzzle do "nós"; a saudade de voltarmos a pertencer aos olhos do outro; a saudade de beber da fonte viva que é o coração do outro; a saudade de tocar no corpo onde vive metade de nós.
Eu sinto isto contigo e, oh meu Deus, como é bom sentir! Todos os dias aprendo mais e melhor a sentir a saudade porque é com ela que também aprendo a degustar todos os nossos momentos, é com ela que sei que o caminho faz-se andando de mão dada contigo e é com ela que tenho a certeza de que o amor que temos está vivo e bem de saúde.
Se muitos casais conseguissem olhar para a saudade como nós conseguimos olhar para a nossa o amor seria sempre saudável e existiriam menos divórcios. Porque o que estraga o amor é a ausência sim; da saudade.
Temos a virtude da insatisfação que nos leva a procurar a novidade, a descobrir o desconhecido, o que também nos leva ao defeito de que o que não é novo passa a desinteressante. E numa relação a dois esse é o maior desafio: descobrir e procurar o que ainda não conhecemos. O melhor mecanismo? A saudade, sem dúvida. Ela é o motor que nos faz percorrer distâncias para do longe fazer-se o perto, e isso não serve só para distâncias físicas mas também emocionais.
Saudade do meu filho
Sou uma mulher abençoada por te ter e faço questão de to mostrar todos os dias, mesmo quando esses dias não são tão bons. E a verdade é que já o dia vai a meio e só me apetece chegar a casa, abraçar-te e sentir esse cheiro de bebé quase extinto mas que ainda consigo sentir, beijar as tuas bochechas mai' lindas que fazem covinhas quando sorris (como as minhas), de sentir o teu abraço apertado (que quase me sufoca de tanto apertares o meu pescoço). Contigo o valor da saudade é ainda maior porque tu és um pedaço meu, literalmente. E sem ti não existiria nenhum ponto cardeal na minha vida, não haveria bússola capaz de me manter em terra. Ainda assim, a saudade diária que tenho de ti é tão boa que nos permite amar-mo-nos melhor quando voltamos para os braços um do outro.
Prometo-te que farei questão de a manter como a vivemos, mesmo quando voares para fora do ninho. Mas posso só pedir-te um favor, meu amor pequenino? Cresce devagarinho, sim?
Saudade do meu avô (o meu eterno ídolo)
Esta saudade é a que me dói mais. Porque ver-te implica fazer um esforço enorme por ter poucos flashes da tua fisionomia. Não fossem as fotografias guardadas pelo tempo e não me lembraria ao certo de como eras (eu era tão pequena quando me deixaste).
Tu sabes que falar de ti não é fácil mas é um orgulho que me deixa um embargo na voz. E apesar da saudade ser boa porque me relembra que estou viva, a que tenho de ti é uma aprendizagem contínua. Há dias em que ela me faz bem mas há outros em que ela me vence. Não é fácil encontrar um lado positivo na saudade de quem já não está, de quem amamos e não podemos ouvir ou abraçar. Mas sabes que mais? Esse lado existe. A saudade que tenho de ti obriga-me a aprimorar os cinco sentidos (e até o sexto!) que me permitem sentir-te por perto, ouvir-te, abraçar-te, conversar contigo. Já te disse que o amor faz milagres?
É a saudade que tenho de ti que nos ligará para sempre, é ela que alimenta o nosso amor todos os dias da minha vida, é ela que me ensina a amar mais e melhor os outros que cá estão e é ela que me conduzirá de volta aos teus braços quando a minha missão entrar em modo "the end". Espera-me, sim?
Perante isto, só posso concluir uma coisa: o valor da saudade tem muito mais de bom do que de mau. A saudade tem o valor que lhe quisermos dar.
No meu conceito, a saudade é amar com sabedoria, mas sobretudo é sermos corajosos para a sentir.
Não fosse ela e o valor do ter e do pertencer não tinham razão de existir. E é pertencendo que nos humanizamos.
ML
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